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14-08-2017 : Análise

Trinta anos após o Pacto de Montreal, o problema do ozônio continua sem solução

Apesar da proibição de produtos químicos como os clorofluorcarbonos, o buraco de ozônio sobre a Antártida continua sendo quase tão grande quanto em 1987, quando foi assinado o Protocolo de Montreal. Cientistas alertam agora para novas ameaças à camada de ozônio, incluindo o uso generalizado de substâncias químicas destruidoras do ozônio que não estão cobertas pelo tratado

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O Protocolo de Montreal consertou o buraco na camada de ozônio? No começo parecia que sim. Com a proibição dos clorofluorcarbonos (CFC) e outros produtos químicos destruidores do ozônio, muitos cientistas diziam que era apenas uma questão de tempo até a camada de ozônio se recompor e o buraco anual sobre a Antártida ficar completamente curado.

Mas 30 anos depois, alguns químicos especializados na atmosfera já não têm tanta certeza disso. A cura vem se mostrando extremamente lenta. E as novas descobertas sobre substâncias químicas não contempladas pelo protocolo aumentam o temor de que a recuperação completa possa ser postergada para o século XXII ou inclusive de que não seja possível.

Em meados de setembro, a Organização das Nações Unidas comemorará o 30º aniversário do protocolo. Ela declarará que “somos todos heróis do ozônio”. Mas, será que não estamos cantando vitória cedo demais?

A camada de ozônio é uma característica natural da estratosfera há muito tempo, a parte da atmosfera que começa aproximadamente 10 quilômetros acima da Terra. A camada de ozônio filtra a perigosa radiação ultravioleta do sol, que pode causar câncer de pele e prejudicar muitas formas de vida. Ela pode ter tido um papel fundamental no desenvolvimento da vida na Terra.

Foi este o motivo do alarde na década de 1970, quando os pesquisadores avisaram pela primeira vez que compostos extremamente estáveis fabricados pelo homem, como os CFC usados em refrigerantes e aerossóis, estavam flutuando rumo à estratosfera, onde liberavam átomos de cloro e bromo que decompunham as moléculas de ozônio. Na década de 1980, pesquisadores da Antártida descobriram que estas reações químicas eram aceleradas nas nuvens estratosféricas superfrias que se formavam sobre o continente congelado. Elas tinham começado a criar um enorme “buraco” na camada de ozônio no final de cada inverno austral.

O pânico resultante disso levou à assinatura do Protocolo de Montreal de 16 de setembro de 1987. Este acordo e outros posteriores descontinuaram gradativamente a produção de uma série de compostos artificiais de cloro e bromo que se acredita que possam durar vários anos, o tempo necessário para atingir a estratosfera. Além dos CFC, eles incluem tetracloreto de carbono, hidroclorofluorocarbonos (HCFC) e brometo de metila, um fumigante antes usado amplamente para combater pragas.

Até aqui tudo bem. A quantidade de substâncias que esgotam a camada de ozônio na atmosfera diminuiu em mais de 10% desde que atingiu seu ponto mais alto no final dos anos 90. Como resposta, o ozônio total na atmosfera permaneceu praticamente inalterado desde o ano 2000.

Imagens de satélite que mostram a extensão anual máxima do buraco de ozônio sobre a Antártida de 1979 a 2013. Crédito: GODDARD SPACE FLIGHT CENTER da NASA

Mas nos últimos cinco anos apareceram evidências de que compostos potencialmente destruidores do ozônio possam atingir a estratosfera muito mais rápido do que se acreditava. Em determinadas condições meteorológicas, apenas alguns dias podem ser suficientes. E isto significa que uma ampla gama de compostos muito mais efêmeros estão ameaçando a camada de ozônio, produtos químicos não contemplados pelo Protocolo de Montreal.

Estes compostos estão ao nosso redor. São amplamente usados como solventes industriais para trabalhos como o desengorduramento e a limpeza a seco. E suas emissões na atmosfera estão aumentando rapidamente.

Entre estes novos produtos destruidores de ozônio aparecem o diclorometano (DCM), um removedor de tinta comum e barato, que também é utilizado em agentes espumantes e, ironicamente, na fabricação de alternativas aos CFC que não prejudicam o ozônio. Com emissões que agora ultrapassam um milhão de toneladas por ano, a concentração de DCM na atmosfera mais baixa mais do que duplicou a partir de 2004. Ainda assim, ela não é considerada uma ameaça para a camada de ozônio, já que sua vida útil normal na atmosfera antes de sua decomposição em reações fotoquímicas é de apenas por volta de cinco meses. Os químicos atmosféricos concluíram que ela certamente permaneceria na camada mais baixa da atmosfera.

Mas este ponto de vista tornou-se insustentável em 2015, quando Emma Leedham Elvidge da Universidade de East Anglia (University of East Anglia) examinou amostras de ar tomadas a bordo de um avião comercial que voava pela borda inferior da estratosfera. Ela detectou altos níveis de DCM, especialmente sobre o subcontinente indiano e o sudeste asiático e particularmente durante a estação das monções da Ásia, quando fortes correntes ascendentes elevam o ar rapidamente do solo até a estratosfera. Parece que elas também estão transportando DCM.

Sinais de alerta em relação a dezenas de outros compostos de cloro de curta duração potencialmente destruidores do ozônio que se acumulam na atmosfera estão disparando

Quanto isso é preocupante? Ryan Hossaini, químico atmosférico da Universidade de Lancaster (Lancaster University), fez as contas recentemente. Segundo ele, o DCM proporciona atualmente menos de 10% do cloro à camada de ozônio. No entanto, em virtude das tendências atuais das emissões, talvez a regeneração da camada de ozônio sofra um atraso de 30 anos, até, no mínimo, 2095, sugere Hossaini.

Há quem compartilhe da mesma preocupação. “Quantidades cada vez mais altas de DCM filtram-se para a estratosfera, onde são extraordinariamente eficazes na destruição do ozônio”, afirma David Rowley, químico atmosférico da Escola Universitária de Londres (University College London), que não participou na pesquisa, e conclui: “O DCM tem um grande potencial de afetar o equilíbrio global do ozônio”.

Sinais de alerta em relação a dezenas de outros compostos de cloro de curta duração potencialmente destruidores do ozônio, que se acumulam na atmosfera em virtude do rápido crescimento de sua fabricação em escala mundial, estão disparando. Eles incluem o 1,2-dicloroetano, um produto químico amplamente utilizado na fabricação de tubos de PVC. Ainda há pouca medição atmosférica deste composto, “mas os dados esporádicos indicam que é uma fonte significativa de cloro na atmosfera”, diz Hossaini.

O risco de que estes produtos químicos cheguem à camada de ozônio é mais alto nos trópicos, onde a produção está em auge nos países de rápida industrialização, como, por exemplo, a China e a Índia, e onde quis o acaso que os padrões de circulação atmosférica fossem favoráveis. A monção asiática pode propulsar os gases à estratosfera em apenas dez dias, segundo uma pesquisa não publicada à qual Yale Environment 360 teve acesso.

Minimum ozone levels from 1979 to 2013. from YaleE360 on Vimeo.

Trinta anos depois, o Protocolo de Montreal ainda não conseguiu controlar estes químicos, adverte Rowley, e conclui: “Até pouco tempo atrás se pensava ingenuamente que as substâncias químicas de curta duração não representariam perigo para o ozônio estratosférico. Errado”.

O movimento das substâncias químicas que esgotam a camada de ozônio através da atmosfera, deslocando-se dos trópicos e concentrando-se na Antártida. GODDARD SPACE FLIGHT CENTER da NASA

Outras lacunas no protocolo dizem respeito também aos pesquisadores. Em 2014, colegas de Leedham Elvidge na Universidade inglesa de East Anglia (University of East Anglia) alertaram para a presença cada vez maior de três CFC supostamente proibidos pelo protocolo no ar limpo que circula pelo Oceano Austral e é capturado no cabo Grim da Tasmânia. Johannes Laube, químico atmosférico também da universidade de East Anglia, calculou que as emissões globais de CFC-113a, antes uma importante matéria-prima na fabricação de refrigerantes e pesticidas piretroides, duplicaram em dois anos.

Como é possível? Acontece que o Protocolo de Montreal nunca proibiu completamente os CFC. “O CFC -113a constitui uma lacuna jurídica que permite que as indústrias solicitem isenções”, comenta Laube. As cláusulas de confidencialidade no tratado quanto a estas isenções levam a que “nós simplesmente não saibamos se encontramos emissões isentas ou se são de alguma fabricação ilegal em algum lugar. Seja como for, elas crescem rapidamente, e por isso são motivo de preocupação”. É bem verdade que o comércio com produtos químicos proibidos que destroem a camada de ozônio diminuiu na última década, mas ele continua sendo um problema, e foi particularmente documentado no caso dos hidroclorofluorocarbonos.

Os cientistas sabiam que a recuperação da camada de ozônio levaria tempo por causa da longa vida útil de muitos dos compostos perigosos que foram liberados em décadas passadas. Mas no ano passado, a cientista do MIT Susan Solomon −que na década de 1980 chegou a ser uma das cientistas mais famosas do mundo por descobrir a química das nuvens estratosféricas polares−, declarou que havia detectado as primeiras “impressões digitais” do fechamento do buraco: “Acaba de começar a cura da camada de ozônio na Antártida”, escreveu.

“Os sinais de uma recuperação da camada de ozônio ainda não são visíveis”, afirma um especialista

Mas outros pesquisadores continuam cautelosos. Na primavera passada foram observados alguns buracos enormes no ozônio antártico. O buraco de 2015 foi o quarto maior desde 1991, atingindo dimensões semelhantes às do continente da América do Norte. Também foi mais profundo que outros buracos recentes e durou mais tempo. Em 2016 também foi pior que a média e prevê-se que em 2017 também seja grave.

Solomon jogou a culpa das dimensões alcançadas em 2015 no vulcão Calbuco no Chile, que expeliu partículas de enxofre que aumentaram as propriedades destrutivas do ozônio das nuvens estratosféricas polares. Mas Susan Strahan, do Goddard Space Flight Center da NASA, adverte que o tamanho do buraco ainda está dominado pelas variações interanuais na temperatura da estratosfera e por fenômenos meteorológicos imprevisíveis, independentemente do ano. “Os sinais de uma recuperação da camada de ozônio ainda não são visíveis”, garante e acrescenta que esse dia chegará, mas talvez tenhamos de esperar até a década de 2030.

Enquanto isso, na outra ponta do planeta, as perdas de ozônio sobre o Ártico podem continuar piorando. O Ártico é menos suscetível à formação de buracos de ozônio que a Antártida, porque o clima é mais irregular. Lá a estabilidade do ar, responsável pelas condições extremamente frias em que se formam as nuvens estratosféricas polares na Antártida, é muito menos provável. Mas acontece quando as temperaturas caem o suficiente para que se formem nuvens estratosféricas polares.

Em 2011 formou-se brevemente um buraco profundo sobre o Ártico. Em alguns lugares, mais de 80% do ozônio foi destruído, o dobro da perda registrada nos piores anos anteriores, 1996 e 2005. Nos dois últimos invernos, os pesquisadores viram nuvens estratosféricas polares sobre partes da Grã Bretanha, conta Jonathan Shanklin, do British Antarctic Survey. Mas foram breves e não levaram a uma perda importante de ozônio.

Shanklin afirma que uma razão importante para a recuperação lenta da camada de ozônio é o aquecimento global. À medida que os níveis mais altos de gases de efeito estufa, como o dióxido de carbono, absorvem mais calor solar irradiado a partir da superfície da Terra, menos calor chega à estratosfera que, consequentemente, esfria. Esta tendência tem sido evidente durante quase 40 anos. Uma estratosfera mais fria favorece a perda de ozônio. A mudança climática “poderia postergar a regeneração da camada de ozônio para já bem avançada a segunda metade deste século”, diz.

Proteger a camada de ozônio “representa um desafio industrial e político muito maior do que se acreditava”, afirma um pesquisador

Deveríamos estar assustados? Algumas das hipóteses mais absurdas dos primeiros dias do buraco de ozônio −como as ovelhas cegas na Patagônia e o colapso dos ecossistemas marinhos− mostraram-se ridículas. Mas o risco maior de câncer de pele pelo aumento na radiação ultravioleta que atravessa a reduzida camada de ozônio é real o suficiente, sobretudo para as pessoas de pele branca que imprudentemente se expõem ao sol. A camada de ozônio continua sendo tão fina quanto era 30 anos atrás.

A boa notícia é que sem o Protocolo de Montreal teria sido muito pior, diz Martyn Chipperfield, químico atmosférico da Universidade de Leeds (University of Leeds). O buraco antártico seria aproximadamente 40% maior do que é, a camada de ozônio sobre a Europa e a América do Norte seria 10% mais fina, o buraco ártico de 2011 teria sido do tamanho da Antártida, e teríamos cerca de dois milhões de casos a mais de câncer de pele até 2030, segundo pesquisa realizada por Chipperfield e seus colegas.

Ainda assim, a ideia de que o Protocolo de Montreal está fazendo seu trabalho e de que a regeneração está em andamento começa a parecer comodista. Se as emissões não controladas de substâncias químicas destruidoras da camada de ozônio, como o DCM, continuarem aumentando, talvez os ganhos sejam perdidos. A resposta é óbvia. “Deveríamos começar a controlar o DCM e outros solventes, da mesma forma que fizemos com os CFC”, comenta Leedham Elvidge.

A Organização Meteorológica Mundial e outros órgãos das Nações Unidas que supervisionam o protocolo reconhecem que o DCM e outras substâncias de curta duração que esgotam a camada de ozônio “são um novo problema para o ozônio estratosférico”, mas os governos signatários ainda devem adotar medidas para limitar suas emissões.

Isto implicaria desfazer-se de uma gama muito mais ampla de produtos químicos que a que é proposta pelo protocolo. Proteger a camada de ozônio “representa um desafio industrial e político muito maior do que se acreditava”, garante Rowley. Trinta anos depois, evidentemente ainda há muito a ser feito.

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Fred Pearce
SOBRE O AUTOR Fred Pearce é escritor e jornalista freelancer do Reino Unido. Exerce funções como consultor ambiental para a revista New Scientist e é autor de vários livros sobre o tema, incluindo “When The Rivers Run Dry e With Speed and Violence”. Em artigos anteriores para a Yale Environment 360, Pearce escreveu sobre a forma como a população indígena utiliza a tecnologia GPS para proteger as suas terras e sobre a promessa de uma agricultura “amiga do ambiente”.