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28-02-2017 : Reportagem Especial do E360

Em Honduras, defender a natureza é um negócio mortal

Berta Cáceres lutou para proteger as terras indígenas de Honduras... e pagou por isso com a própria vida. Ela é uma das centenas de vítimas de uma preocupante tendência mundial: os assassinatos dos ativistas ambientais que tentam impedir programas de desenvolvimento. O primeiro de uma série.

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Eles chegaram em uma noite do passado mês de março, quando Berta Cáceres estava indo dormir. Um chute muito forte quebrou a porta de trás da casa segura para onde ela tinha acabado de se mudar. Seu colega e amigo da família, Gustavo Castro, escutou-a gritar: “Quem está aí?”. Depois vieram vários tiros. Ele sobreviveu. Mas a ativista social e ambiental mais famosa e valente de Honduras morreu no ato. Tinha 44 anos. Foi um assassinato político a sangue frio.

Berta Cáceres sabia que corria um grande risco de ser assassinada. Todo o mundo sabia. Ela já tinha avisado sua filha Laura, que se preparasse para viver sem ela. No discurso do prestigiado Prêmio Goldman, concedido a ela nos Estados Unidos há menos de um ano, foram citadas as contínuas ameaças de morte que recebia, antes de acrescentar: “Para seus colegas, seu assassinato não seria uma surpresa, embora tenham a esperança de estar errados”.

Austraberta Flores, mãe de Cáceres, explica que as autoridades estavam cientes das ameaças, mas não fizeram nada para proteger sua filha. JEREMY RELPH PARA YALE E360

“Eu sabia que ela estava com medo”, afirma María Santos Domínguez, que mora no remoto vilarejo indígena de Río Blanco, no oeste montanhoso do país, onde Cáceres era o rosto de uma campanha contra a barragem de um rio considerado sagrado para o povo lenca. E acrescenta: “Foi demais para ela. Posso garantir.”

Muitos acreditam que essa campanha contra a represa de Agua Zarca, no rio Gualcarque, foi o que motivou seu assassinato, outro mais de uma série de recentes assassinatos de ativistas ambientais e sociais em Honduras.

Honduras, explica o grupo internacional para os direitos humanos Global Witness, é “o país mais perigoso do mundo para defender a natureza”. Pelo menos 109 pessoas foram assassinadas por se manifestarem contra represas, minas, desmatamento e projetos agrícolas em Honduras desde que o golpe militar de 2009 estabeleceu um governo que rapidamente recebeu o apoio do Departamento de Estado dos Estados Unidos. A Global Witness registra todos os assassinatos de ativistas pelos direitos humanos e ambientais do mundo todo, e seu último relatório revelou que 2015 foi o ano mais perigoso para ser ativista ambiental.

Cáceres foi apenas a vítima mais notória de uma epidemia mundial que registrou quase 200 mortes no ano passado. “O meio ambiente está emergindo como um novo campo de batalha pelos direitos humanos”, afirma a Global Witness. Com o aumento da procura de produtos como madeira, minerais e azeite de palma, as empresas estão explorando a terra com poucas considerações pelas pessoas que vivem nelas, conforme indica o relatório, que observou que cada vez mais “as comunidades que decidem resistir se situam na linha de fogo das empresas de segurança privada, das forças do Estado e de um crescente mercado de assassinos contratados”.

E 2017 já viu mais coisas acontecerem. Outro antigo ganhador do Prêmio Goldman, o líder indígena mexicano Isidro Baldenegro, que se opunha ao desmatamento ilegal, foi assassinado a tiros em janeiro.

Yale Environment 360 investigou as circunstâncias que rodearam os assassinatos de ativistas ambientais em três continentes, concretamente casos em Honduras, Malásia e África do Sul. Dois aspectos surgiram com força: em primeiro lugar, a frequente caracterização dos ativistas como ecologistas só conta parte da história. Suas campanhas vão muito mais além e, com frequência, têm sua raiz na identidade social dos grupos minoritários —no caso de Cáceres, os indígenas do povo lenca de Honduras.

Em segundo lugar, enquanto capangas e gângsteres solitários costumam terminar nos tribunais, geralmente existe uma conspiração de agentes encarregados de silenciar os ativistas. O diretor desta campanha da Global Witness, Billy Kyte, acrescenta sobre o tema: “Estes não são incidentes isolados, são sintomas de um assalto sistemático às remotas comunidades indígenas por parte do Estado e de agentes empresariais.”

Segundo os procuradores de Honduras, das oito pessoas detidas até o momento em relação à morte de Cáceres, seis têm vínculos com os serviços de segurança do Governo, incluindo um batalhão militar de elite treinado pelas Forças Especiais dos Estados Unidos. E dois dos acusados reconheceram vínculos com a empresa hondurenha que está por trás do projeto da represa, Desarrollos Energéticos SA, incluído um chefe de segurança e o encarregado de suas políticas ambientais. Yale Environment 360 averiguou que os processos contra os acusados são construídos a partir dos registros das ligações de telefone celular realizadas no momento do crime.

Em um comunicado, a empresa manifestou que “não fez nenhuma declaração, nem tem a intenção de fazê-la, até que as autoridades encarregadas da investigação determinem as causas e os autores deste lamentável incidente.”

Pascualita Vásquez, líder espiritual da localidade, no centro para mulheres em La Esperanza. JEREMY RELPH PARA YALE E360

Cáceres nasceu em uma das famílias mais proeminentes do povo lenca, que vive nas montanhas no oeste de Honduras. Durante os 23 anos desde que ajudou a formar o Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH) dedicou-se a reavivar a identidade cultural e política dos lencas. Sua organização, com base na cidade de La Esperanza, consolidou-se e fez com que sua voz fosse ouvida. Estabeleceu um centro de formação, apelidado Utopia, e uma rede de emissoras de rádio, La Voz Lenca.

Cáceres tinha se oposto a uma série de programas de desenvolvimento e concessões a empresas para a construção de represas, minas e outros projetos.

Sem dúvida era marxista, mas arraigada na identidade lenca das montanhas, rios, florestas e vida vegetal da região.

“Berta era o COPINH e o COPINH era Berta”, afirma Karen Spring, uma ativista social canadense que mora na capital do país, Tegucigalpa. “Especialmente depois do golpe de Estado de 2009, ela tornou-se uma das pessoas mais importantes do país. E mais temida. É por isso que queriam matá-la.” Tinha se oposto a uma série de programas de desenvolvimento e de “concessões” oferecidas, com frequência ilegalmente, a empresas privadas para a construção de represas, minas e outros projetos.

Cáceres tornou-se também uma figura importante no crescente movimento latino-americano dos povos indígenas. Mais de 3.000 pessoas abarrotaram as ruas de La Esperanza no dia de seu enterro. Um ano mais tarde, a cidade ainda está cheia de grafites que dizem “Berta vive”, e os altares são visíveis nas esquinas das ruas. Estrangeiros do mundo todo visitam seu túmulo no cemitério da cidade. Berta transforma-se assim em mártir..

Berta Cáceres no rio Gualcarque em 2015. CORTESIA DO PRÊMIO GOLDMAN

A tenacidade política de Cáceres provinha de gerações de uma família de políticos, especialmente as mulheres. Para entendê-la, visitei sua mãe, de 85 anos, mãe, Austraberta Flores, com quem morou até os últimos meses. Seus amigos dizem que ela se afastou da mãe para que não presenciasse seu inevitável final. Além de ter nove filhos, Flores era parteira. Quase todas as pessoas que conheci em La Esperanza afirmaram ter sido trazidas ao mundo por ela.

Mas também era política: foi três vezes prefeita da cidade e congressista na capital, Tegucigalpa. Promoveu na legislação nacional um código internacional que exigia um consentimento livre e informado de comunidades como os lencas antes de realizar projetos como a construção de represas e minas em suas terras. “Ainda é a lei mais forte que temos”, afirma Flores, com orgulho.

Ela também tinha sido ativista de primeira linha, realizando incursões periódicas à fronteira com El Salvador durante a guerra civil na década de 1980 para ajudar as mulheres combatentes salvadorenhas a dar à luz seus bebês durante a fuga. “Ajudávamos os salvadorenhos a se libertarem para que pudessem ajudar em nossa libertação”, explica.

“Berta cresceu com a luta. Ela viveu isso todos os dias”, conta Flores. E acrescenta: “Era sua escola. Eu sabia que ela seria importante. Eu sempre a incentivei a ser o que ela chegou a ser.” Berta e sua mãe formavam um time formidável. Enquanto Flores redigia a legislação sobre a obrigação de obter um “consentimento livre e informado” antes da realização de projetos de desenvolvimento, sua filha organizava manifestações de rua para apoiar a aprovação.

‘Nascemos aqui’, constata uma oponente da represa. É nossa terra e nosso rio. Se perdermos o rio, morreremos’.

Flores culpa o Estado pela morte de sua filha. “Ela tinha apresentado 40 queixas de ameaças a ela. Sabiam que ela estava sendo ameaçada, mas não a protegeram”. Agora, as filhas de Cáceres, Bertita, de 26 anos, e Laura, de 24 anos, “têm a responsabilidade de continuar na luta”, disse Flores.

Grande parte do poder do COPINH reside na combinação entre o radicalismo político —antimilitarista, antipatriarcal, anticapitalista e antiamericano— e um profundo apego tradicional à cultura e à terra dos povos lencas. No centro para mulheres do COPINH, um edifício novo e fortemente vigiado em La Esperanza que acolhe as mulheres que sofreram abusos e intimidações, eu conversei com Pascualita Vásquez, de 75 anos. Ela foi, durante muito tempo, a presidente do Conselho de Idosos, estabelecido por Cáceres para recuperar as tradições culturais e os vínculos com a terra. Abençoam os rios, a terra antes da colheita e as novas casas.

“Antes de Berta, nossas cerimônias estavam se perdendo. Lembro delas de quando era menina, mas nós já não praticávamos”, explica. “Mas Berta nos mostrou a importância para nós de resgatar nossas tradições e realizar cerimônias antes dos debates sobre temas de atualidade como as represas. Reverenciamos nossos antepassados, e agora que Berta está morta, também a vemos como um antepassado”.

Agora, a recuperação dos remédios naturais a base de ervas e das sementes, por exemplo de milho, é primordial para reclamar suas terras, acrescentou. Nós conversamos perto de um altar para Cáceres criado no centro da sala, com velas, espigas de milho, abacaxis e um frasco de água do rio que Cáceres protegia antes de ser assassinada.

No dia seguinte viajei a Río Blanco, o remoto vilarejo que se tornou o centro da última campanha de Cáceres contra a represa de Agua Zarca. Foi uma luta violenta e amarga. Em 2013, o ativista local Tomás García foi assassinado a tiros por soldados durante uma manifestação em um acampamento formado por trabalhadores chineses a ponto de iniciar a construção da represa.

A ativista María Santos Domínguez foi gravemente ferida ao ser atacada com um facão pelos moradores locais que apoiavam o projeto da represa. JEREMY RELPH PARA YALE E360

 

Minha anfitriã era a moradora local María Santos Domínguez, líder local da oposição à represa. Tinha uma terrível cicatriz no rosto. Explicou como os moradores tinham se dividido entre os que eram a favor da represa e os que eram contra. Uma família em particular queixou-se de que ela “falava demais”. Foi culpa sua, indicam, que o povoado não pudesse se desenvolver economicamente.

“Eles me viram passar quando estava a caminho da escola de meus filhos um dia, e se esconderam até eu voltar. Depois me atacaram com um facão. Eu estava com o telefone na mão para falar com meu marido. Ele escutou tudo e veio correndo. Meu filho estava com ele, e disse-lhe: “Estão matando sua mãe”.

Domínguez passou seis meses recuperando-se no centro para mulheres de La Esperanza. “Estava à beira do suicídio”, disseram os cuidadores. Mas agora já voltou para casa, mais decidida que nunca. Ela tem um programa semanal na estação de rádio lenca, emitindo de uma localização mantida em segredo para evitar ataques.

“Nós nascemos aqui. É nossa terra e nosso rio”, disse. E continua: “Se perdermos o rio, morreremos. Precisamos da água para tomar banho, pelos peixes, pela água, para nossas plantações e animais.”

Levou-me até o rio, a uma garganta onde se formava uma piscina natural entre duas corredeiras. É um lugar lindo e, em termos de engenharia, um lugar ideal para a represa que até esse momento tinham podido evitar. Domínguez costuma tomar banho com seus filhos nas transparentes e frias águas da montanha. “O rio é sagrado para nós. Acreditamos nos espíritos no rio —são três meninas que nos dão forças para lutar contra os construtores da represa”, disse. Para Domínguez e outros isso se tornou uma luta existencial.

Alguns dias antes de seu assassinato, Cáceres tinha ido a Río Blanco. “Havia pessoal da represa no rio, trabalhando com máquinas. Parecia que estavam a ponto de começar a construir. Então fomos visitá-los”, explicou Domínguez. “Mas eles a acusaram de alterar a ordem e ameaçaram matá-la. Alguns dias mais tarde, estava morta. Desde então, o pessoal da represa não voltou para o rio”.

Algum dia será construída a represa de Agua Zarca? Agora, algumas pessoas têm suas dúvidas. Só poderia gerar modestos 22 megawatts de eletricidade. Depois dos protestos generalizados pela morte de Cáceres, investidores internacionais, incluída a financeira holandesa FMO e a finlandesa Finnfund, anunciaram que abandonariam o projeto. Os chineses também se retiraram. Mas no resto do território lenca, as represas seguem adiante.

“O presidente quer vender nossa terra e nossos rios, e o ar limpo de nossas montanhas. Ele venderia até os pássaros das árvores.”

Na província de La Paz, os lencas têm lutado com uma série de projetos hidrelétricos nos rios montanhosos, promovidos por Gladys Aurora López, vice-presidente do Congresso de Honduras e membro do Partido Nacional, de direita, atualmente no Governo, e seu esposo Arnold Castro. Os projetos propostos seriam realizados em montanhas que os nativos afirmam que lhes foram ilegalmente retiradas. Ana Mirian Romero teve sua casa incendiada. “Eles nos chamam de índios estúpidos”, afirma a ativista de La Paz Margarita Pineda Rodríguez. “Mas estes projetos não nos oferecem nenhum benefício, só a perda de nossos recursos naturais.”

“Estamos assistindo à recolonização de nosso país”, afirma Tomás Gómez Membreño, sucessor de Cáceres como coordenador provisório do COPINH, na extensa conversa que tivemos uma noite no centro de formação de La Esperanza. “Cada vez mais de nossos recursos naturais estão sendo entregues a corporações estrangeiras. E cada vez há mais repressão das pessoas que se opõem.”

Esta é uma comunidade ferida. O irmão de Cáceres, Gustavo, que andava por ali enquanto eu entrevistava a mãe, parecia um homem quebrado. Outro de seus antigos lugar-tenentes, Sotero Chavarría, disse-me que não suportava ir ao cemitério e ver seu túmulo.

Mas sua tenacidade diante da persistente violência continua sendo extraordinária. Em março de 2016, apenas duas semanas depois do assassinato de Cáceres, outro ativista do COPINH, Nelson García, foi abatido a tiros no exterior de sua casa no sul de La Esperanza, depois de passar o dia defendendo alguns lencas que estavam sendo desalojados de suas terras.

Víctor Vásquez levou um tiro na perna da polícia enquanto gravava o desalojamento em um vilarejo em janeiro de 2017. JEREMY RELPH PARA YALE E360

Em julho, a ativista e mãe de três crianças Lesbia Yaneth Urquia foi encontrada morta perto de um aterro na cidade de Marcala, com profundos cortes na cabeça. Um dia de outubro, Membreño, coordenador do COPINH, foi tiroteado na rua, e alguém abriu fogo contra a casa de outro líder local, Alejandro García, enquanto ele e sua família dormiam dentro.

No dia em que cheguei a Honduras, o ativista de La Paz Víctor Vásquez levou um tiro na perna de um policial enquanto filmava um desalojamento no povoado de San Pedro de Tutule. “Eles nos disseram que esta terra não é nossa, mas estivemos aqui durante 500 anos”, afirmava Vásquez alguns dias depois em sua casa, onde estava se recuperando. “O presidente quer vender nossa terra e nossos rios, e o ar limpo de nossas montanhas. Venderia até os pássaros das árvores.”

Com voz trêmula, seu jovem filho sentou-se na cama e cantou uma canção de resistência. No cume de uma árvore alta sobre o povoado ondeava uma bandeira hondurenha, um símbolo da resistência indígena, segundo me disse.

Hoje, a modesta cabana de Cáceres está vazia. O único sinal de seu violento fim é um amassado na cerca de arame por onde os assassinos pularam. Um cartaz dizendo “Berta Vive” está pendurado na janela. Alguns querem que sua casa seja um museu de sua vida, como selo de seu martírio. O rio, que ela morreu defendendo, talvez seja represado, talvez não. Mas a batalha por seu legado –e pelo futuro dos lencas e suas terras– continua.

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Fred Pearce
SOBRE O AUTOR Fred Pearce é escritor e jornalista freelancer do Reino Unido. Exerce funções como consultor ambiental para a revista New Scientist e é autor de vários livros sobre o tema, incluindo “When The Rivers Run Dry e With Speed and Violence”. Em artigos anteriores para a Yale Environment 360, Pearce escreveu sobre a forma como a população indígena utiliza a tecnologia GPS para proteger as suas terras e sobre a promessa de uma agricultura “amiga do ambiente”.